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Os Oito Odiados

Quentin Tarantino sempre foi daqueles diretores "ame ou odeie". Enquanto uns acreditam que o diretor é um dos grandes gênios do cinema moderno, outros o acham superestimado, exagerado, megalomaníaco. Seus filmes causam horror em alguns, riso em outros, mas nunca indiferença. Dificilmente alguém será neutro em relação a algum longa dele. Sabendo disso, ele quer fazer com que isso se torne cada vez mais forte com seu oitavo filme na direção. 
Os Oito Odiados acontece alguns anos após a Guerra Civil Americana, John Ruth (Kurt Russell), um caçador de recompensas conhecido como ‘o enforcador’ está indo para o vilarejo de Red Rock onde entregará a criminosa Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) para a justiça e ficará com a recompensa de 10 mil dólares. No caminho, encontra Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson), um ex-soldado que adora contar uma história, e também Chris Mannix (Walton Goggins), um homem que está indo assumir o posto de xerife da cidade de Red Rock. Após enfrentarem uma forte nevasca, eles buscam abrigo e chegam a um local chamado Armazém da Minnie, onde já se encontram quatro desconhecidos: um inglês, um mexicano, um cowboy e um veterano general. Confinados, os oito personagens compartilham segredos sangrentos de seus respectivos passados.  
Depois do sucesso de Django Livre (2012), o diretor americano resolveu mais uma vez investir no Western e manter as belas homenagens aos diretores Sam Peckimpah e Sergio Leone, mas desta vez ousou ir além. Enquanto em seu filme anterior os grandes cenários do velho-oeste ganham destaque, este é claustrofóbico e desafiador. Afinal, rodar o filme que se passa em sua maioria dentro de um cenário em 70mm pode parecer coisa de louco. Mas não, apesar dos projetores nacionais não possuírem essa capacidade, ainda é perceptível a amplitude dos planos em alguns momentos. Enquanto alguns personagens aparecem em foco, outro acontecimento ocorre por trás dele, e assim vai. 
Logo no início percebemos o quão cuidadoso Tarantino é com suas cenas, enquanto os créditos iniciais aparecem, um crucifixo é destacado em primeiro plano conforme a composição de Ennio Morricone (!!!!) se desenrola. Lá atrás, vemos uma carruagem se aproximando e isso se estende por alguns minutos até chegarmos, de fato, no início do filme: O tão tradicional Capítulo I, onde conhecemos os primeiros personagens, citados na sinopse.  
O diretor tira o pé do acelerador (coisa que não faz há uns três filmes) para construir uma narrativa com a maior delicadeza possível. O longa mais parece uma peça de teatro, com marcações e que conta com a grande presença do cenário, no caso o abrigo em que estão (O que lembra um pouco Cães de Aluguel). Não vá ao cinema esperando aquela ação desenfreada e regada a sangue. Tarantino desta vez procura chamar atenção por aquilo que eu sempre julguei ser seu maior trunfo: a capacidade de se contar uma história boa. São quase duas horas de diálogos e introduções aos personagens e suas situações. Até mesmo para quem gosta do diretor isso pode parecer estranho no começo. Para quem não o conhece, pode parecer ser bem maçante. Para quem não gosta, com certeza será. 
Mas é no terceiro ato em que toda a magia acontece. Ali, o público descobre e liga todas as pontas soltas até então e vai aos poucos descobrindo quem é quem, ao melhor estilo Agatha Christie. Também é neste momento em que o diretor volta a pisar no acelerador e não deixa o público sequer piscar, ou perderá algum detalhe. 
Mas é, mesmo, no primeiro e no segundo ato em que vemos todas as grandes qualidades que ele tem como diretor. Já citado o fato de construção de uma narrativa, outra grande qualidade sua é a boa mão na direção de atores. A maioria do elenco tem o tempo suficiente para trabalhar seus personagens e até mesmo parodiar alguns de seus antigos, como é o caso de Tim Roth, que claramente tenta ser tão fanfarrão quanto o dentista de Django Livre, interpretado por Christopher Waltz. Apesar dos personagens de Michael Madsen e Bruce Dern serem um pouco mal aproveitados, outros personagens de destaque ficam por conta de Kurt Russel, no papel de John Ruth (O enforcador) e Walton Goggins (o Xerife). 
Mas quem rouba a cena mesmo é o veterano de Tarantino Samuel L. Jackson e a novata Jennifer Jason Leigh. O primeiro, já um pouco abatido pela idade, faz um de seus trabalhos mais legais dos últimos anos. A cena em que ele conta uma história ao General (Bruce Dern) é uma das mais memoráveis e desafiadoras que vi em muito tempo. Já Leigh, que interpreta a prisioneira, contribui muito para o alívio cômico e até mesmo para o andamento da trama. Uma personagem bem caricata quando se trata da época.  
Os Oito Odiados não é um filme fácil de se ver. É preciso paciência e, principalmente ciência de que não se trata de um filme convencional Tarantinesco no quesito ação. Não, ele não reinventa a roda e alguns momentos lembram, sim, elementos de seus filmes anteriores. Mas este é a uma grande prova do amor que o diretor tem por todos eles. Tudo nele é feito cautelosamente bem até chegar no seu ápice, como se fosse, de fato, uma obra de arte. Ele não se importa se será melhor ou pior que seus outros longas, muito menos o que a crítica vai dizer. Sua preocupação maior é em contar uma história, e isso, meu amigo, você pode ter certeza de que ele sabe fazer como poucos.

Vinicius Machado quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
Série Oscar 2015: Whiplash - Em Busca da Perfeição

Quando criança, um dos meus maiores sonhos era ter uma bateria. Além do alto preço, minha mãe não me permitiu ter uma pois sabia que eu tornaria aquela casa um inferno tocando por horas. Cresci sem sequer saber tocar instrumento algum, mas até hoje considero a bateria o instrumento mais importante de um conjunto, além de achar o baterista o cara mais cool. 

No cinema, a história é diferente. Que eu me lembre, o único baterista que tem a história centrada em si é no clássico The Wonders - O Sonho não Acabou e ele ainda divide alguns momentos com outros integrantes.  

Whiplash - Em Busca da Perfeição foge desses parâmetros. Primeiro que o filme não tem como pano de fundo uma banda de rock. Segundo que o filme é totalmente voltado para o jovem Neyman (Milles Teller), um garoto de 19 anos talentoso, que estuda num dos melhores conservatórios do país e consegue o posto de baterista suplente na principal banda da escola, comandada pelo rígido maestro Terence Fletcher (J.K. Simmons) 

Neyman quer se tornar uma lenda na bateria e tem como seu principal ídolo Buddy Rich, eleito ano passado pela revista Modern Drummer o mais completo de todos os tempos. Mas para isso, sabe que além de praticar muito, precisa lidar com o temperamento de seu professor impetuoso. 

O argumento do filme é interessante. O filme trata de um assunto que abrange não só a música, mas boa parte das profissões hoje em dia: Até onde vai uma pessoa para conseguir realizar seu sonho? E qual é o limite de um mentor ao buscar extrair o máximo de seu aluno? 

Duas perguntas subjetivas que ditam o ritmo do filme. Neyman tenta a qualquer custo seguir seu sonho e Fletcher faz o mesmo na tentativa de conseguir formar o novo Charlie Parker. O professor exige o máximo (mentalmente e fisicamente) e segue a premissa de que dizer "bom trabalho" a alguém o prejudica. 

Se alguém acha as atitudes do maestro um tanto quanto exageradas, é recomendável procurar um pouco sobre as atitudes de Steve Jobs dentro da Apple. O inventor e empresário era absurdamente exigente e há relatos de ex-funcionários que alegam terem sido humilhados por ele. Se os métodos funcionam ou não é difícil dizer, mas não a toa, a empresa é uma das maiores da atualidade. 

Damien Chazelle faz o seu melhor trabalho na carreira, mas deixa a desejar no roteiro. Não que seja fraco ou algo assim, mas ao fim do filme, o espectador pode ter a impressão de que faltou algo. Uma cereja do bolo ou algo assim. Uma sensação de coito interrompido, melhor dizendo. Além disso, apesar das relações fora da música de Neyman serem determinantes para o desfecho, muitas delas aparecem um pouco superficiais. Nos sentimos dentro do filme apenas nas sequências musicais. Precisava ser mais humano. 

Apesar disso, seu trabalho na direção é impecável, principalmente na última cena do filme. Essa é responsável por torná-lo ainda mais eficiente. O diretor, assim como seus personagens, tenta extrair o que há de melhor em si para dirigir seus personagens e as boas sequências. 

O show de atuações fica mesmo entre o protagonista e (talvez) antagonista. Miles Teller faz ótimo trabalho no papel de Neyman e é uma pena não ter sua presença no Oscar. O jovem ator já mostrou ser promissor e já possui alguns projetos interessantes no futuro, como o papel de Sr. Fantástico em Quarteto Fantástico. 

Já J.K. Simmons é o grande destaque desta trama. Seu papel pode não exigir muita preparação, mas ainda assim é necessário um bom laboratório para encarnar a personagem como ele fez. Embora não seja o favorito, se levar o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante não será surpresa alguma.  

Com ótima trilha sonora, excelente direção, boas atuações e uma sequência final de tirar o fôlego, Whiplash - Em Busca da Perfeição é feito para os amantes de música e para aqueles que buscam seguir algum sonho. Seu único defeito é parecer superficial em alguns quesitos. Chazelle consegue mostrar a obsessão em dois pontos de vista distintos, porém paralelos com eficácia. No entanto, deixar seus efeitos colaterais um pouco fora do cenário principal o torna morno. Na escola Aronofsky de filmes sobre obsessões, Damien Chazelle precisa fazer assim como seu protagonista: praticar mais em busca da perfeição.

Nota:

Vinicius Machado terça-feira, 10 de fevereiro de 2015
Série Oscar 2015: Sniper Americano


Chris Kyle, ex-atirador de elite dos Seals da Marinha norte-americana, foi responsável por cerca de 160 mortes durante toda sua carreira. Cumpriu, durante quatro turnos no Iraque, a missão para a qual fora treinado: garantir a proteção de seus companheiros nas operações por terra.   

Ao retornar para casa, em 2009, trazia no peito dezesseis condecorações e estrelas no peito. No entanto, foi baleado durante uma de suas aulas de tiros a veteranos feridos em guerra por um dos alunos. O fato gerou comoção no país todo e, obviamente, sua história não demoraria a virar um longa metragem. 

Sniper Americano é dirigido por Clint Eastwood e adaptado do livro The Autobiography of the Most Lethal Sniper in U.S. Militar History.  

Após o 11 de setembro, o gênero de guerra voltou à tona e, praticamente todo ano, Hollywood lança um novo longa a respeito. Alguns obtém o sucesso e são indicados a vários prêmios, outros caem no esquecimento. Dois bons exemplos são os filmes da diretora americana Kathryn Bigelow, Guerra ao Terror e A Hora Mais Escura. Enquanto um levou para casa seis estatuetas e é lembrado até hoje, outro levou apenas uma e poucos lembram de ter assistido. 

Sniper Americano é um filme que lembra Bigelow na direção. É cru, bem editado e tenso do começo ao fim. Mas peca ao exaltar ao extremo o patriotismo americano. É um filme feito para o público em massa, sendo assim, certos clichês são colocados no centro da trama. Não é a toa que esta é a estreia de maior bilheteria de Eastwood. 

Assim como todos os filmes do diretor, o foco tende a ser a formação de personalidade do personagem. Kyle é retratado desde alguns episódios de sua infância com seu pai rígido até sua pequena carreira como cowboy, até chegada no exército. 

Porém, apesar do objetivo ser mostrar a obsessão pela guerra e todos os seus efeitos colaterais (que envolvem família e terceiros), o longa tende a cair numa propaganda republicana. Por sorte, temos um bom diretor para não deixar isso fugir do controle. 

A criação dos traumas e as situações vividas pelo soldado são bem retratados. Em certos momentos, o público pode sentir a sensação de estar ali com ele ao decidir se deve ou não puxar o gatilho. Assim como pode sentir a tensão de sua esposa ao ter (ou não) notícias dele durante o tempo no Iraque. 

Bradley Cooper é o responsável por trazer Chris Kyle às telonas e faz mais um excelente trabalho no ápice de sua carreira. Não é de hoje que o ator coleciona elogios por suas atuações. Este será seu terceiro ano seguido concorrendo ao Oscar. Em 2013 e 2014 passou raspando como melhor ator em O Lado Bom da Vida e ator coadjuvante em Trapaça, respectivamente. Devido à forte concorrência, é provável que fique mais uma vez no quase na categoria de melhor ator. Mas isso não desmerece a ascensão do ator, que deixou de ser só mais um rostinho bonito para integrar o time de grandes atores da atualidade. Um dos atores que melhor entende seu papel e o procura fazer de maneira eficaz. 

Com características técnicas apuradas, boa edição e uma excelente atuação de Cooper, Sniper Americano é um longa ao melhor estilo Clint Eastwood, mas peca no patriotismo que só interessa aos próprios americanos. Independente disso, é fato que a adaptação funciona como um bom filme, mas perto de seus concorrentes ao Oscar de melhor filme, não tem a menor chance. 


Nota:

Vinicius Machado quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
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