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Série Oscar 2015: A Teoria de Tudo


Não tem jeito. No Oscar atual, ao menos um filme biográfico concorre à estatueta de melhor filme. Este ano temos três: Selma, O Jogo da Imitação e A Teoria de Tudo. 

Enquanto o primeiro busca trazer um pouco da história de Martin Luther King, os dois últimos são sobre cientistas. Alan Turing e Stephen Hawking respectivamente. No entanto, o enfoque de cada um é o que dita a singularidade dos dois. 

A Teoria de Tudo conta a história do físico inglês Stephen Hawking (Eddie Redmayne),  responsável pela teoria sobre buracos negros e portador de esclerose lateral amiotrófica, diagnosticado quando ainda era jovem. A trama também gira em torno de sua relação com Jane, sua primeira esposa. 

O grande diferencial está exatamente nas relações. O enredo poderia girar apenas em torno de suas teorias fantásticas que poderia, sim, alcançar o mesmo sucesso. Mas a cereja do bolo está na humanização do personagem. 

Todos nós já conhecemos Hawking em sua cadeira de rodas e voz digitalizada. Mas não sabíamos nada a respeito de sua vida. E isso é o que mais nos interessa dentro do longa. Afinal, a linguagem cientifica, se fosse usada como destaque, afastaria alguns públicos, enquanto usar como pano de fundo para um romance, atrairia.  

James Marsh estreia muito na direção de uma ficção. O diretor já levou o Oscar de melhor documentário com O Equilibrista. Sua mão ao saber contar uma história é admirável, principalmente ao ditar outras vertentes de uma mesma situação. Grande acerto foi também não ter caído na pieguice de um romance comum. A ideia de trazer a visão de Jane, mas sem perder ponto principal da trama é muito bem trabalhada. 

Em nenhum momento o espectador encontra uma situação de moralismo barato. Hawking e Jane enfrentam problemas como qualquer outro casal e nem o fator doença transforma o cientista numa vítima ou algo parecido. Pelo contrário. Há algumas brincadeiras e piadas a respeito de sua dificuldade motora. O enredo joga às claras: É um filme sobre o cientista, mas ao mesmo tempo é mais que isso, é um romance, uma outra visão. 

Claro, ainda assim é necessário que o filme tenha suas particularidade para que funcione, e boa parte dela está no casal de atores. 

Felicity Jones faz um ótimo trabalho no papel de Jane. O público mal a percebe no início, mas garota evolui conforme a trama se desenvolve e encerra como uma grande personagem. A atriz tem seu primeiro papel de grande importância e agarrou a oportunidade, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz e, provavelmente, bons papéis no futuro. 

No entanto, é Eddie Redmayne que possui maior destaque no longa. Não é pra menos, já que sua atuação é absurdamente incrível. Redmayne também é praticamente um estreante em papéis de maior expressão e conquistou a todos. Interpretar Hawking é um desafio e tanto. O ator anda e fala até a metade do filme, mas é quando as dificuldades motoras do personagem aparecem que o grande trabalho vem à tona. É o maior favorito a levar o Oscar de melhor ator, talvez um dos únicos prêmios do filme na noite de domingo. 

Com atuações fantásticas e uma história bonita sem precisar apelar para o sentimentalismo baratoA Teoria de Tudo leva ao público um pouco do lado pessoal de Stephen Hawking. Sem dúvidas, esse é um olhar diferente do que estamos acostumados em ver nas biografias cinematográficas. Em meio à exaustão desse gênero, James Marsh mostra que é possível apresentar diversos pontos de vistas sem parecer burocrático. Afinal, se foi aprovado pelo próprio cientista, quem somos nós para botar defeito?

Nota:

Vinicius Machado quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
Série Oscar 2015: Whiplash - Em Busca da Perfeição

Quando criança, um dos meus maiores sonhos era ter uma bateria. Além do alto preço, minha mãe não me permitiu ter uma pois sabia que eu tornaria aquela casa um inferno tocando por horas. Cresci sem sequer saber tocar instrumento algum, mas até hoje considero a bateria o instrumento mais importante de um conjunto, além de achar o baterista o cara mais cool. 

No cinema, a história é diferente. Que eu me lembre, o único baterista que tem a história centrada em si é no clássico The Wonders - O Sonho não Acabou e ele ainda divide alguns momentos com outros integrantes.  

Whiplash - Em Busca da Perfeição foge desses parâmetros. Primeiro que o filme não tem como pano de fundo uma banda de rock. Segundo que o filme é totalmente voltado para o jovem Neyman (Milles Teller), um garoto de 19 anos talentoso, que estuda num dos melhores conservatórios do país e consegue o posto de baterista suplente na principal banda da escola, comandada pelo rígido maestro Terence Fletcher (J.K. Simmons) 

Neyman quer se tornar uma lenda na bateria e tem como seu principal ídolo Buddy Rich, eleito ano passado pela revista Modern Drummer o mais completo de todos os tempos. Mas para isso, sabe que além de praticar muito, precisa lidar com o temperamento de seu professor impetuoso. 

O argumento do filme é interessante. O filme trata de um assunto que abrange não só a música, mas boa parte das profissões hoje em dia: Até onde vai uma pessoa para conseguir realizar seu sonho? E qual é o limite de um mentor ao buscar extrair o máximo de seu aluno? 

Duas perguntas subjetivas que ditam o ritmo do filme. Neyman tenta a qualquer custo seguir seu sonho e Fletcher faz o mesmo na tentativa de conseguir formar o novo Charlie Parker. O professor exige o máximo (mentalmente e fisicamente) e segue a premissa de que dizer "bom trabalho" a alguém o prejudica. 

Se alguém acha as atitudes do maestro um tanto quanto exageradas, é recomendável procurar um pouco sobre as atitudes de Steve Jobs dentro da Apple. O inventor e empresário era absurdamente exigente e há relatos de ex-funcionários que alegam terem sido humilhados por ele. Se os métodos funcionam ou não é difícil dizer, mas não a toa, a empresa é uma das maiores da atualidade. 

Damien Chazelle faz o seu melhor trabalho na carreira, mas deixa a desejar no roteiro. Não que seja fraco ou algo assim, mas ao fim do filme, o espectador pode ter a impressão de que faltou algo. Uma cereja do bolo ou algo assim. Uma sensação de coito interrompido, melhor dizendo. Além disso, apesar das relações fora da música de Neyman serem determinantes para o desfecho, muitas delas aparecem um pouco superficiais. Nos sentimos dentro do filme apenas nas sequências musicais. Precisava ser mais humano. 

Apesar disso, seu trabalho na direção é impecável, principalmente na última cena do filme. Essa é responsável por torná-lo ainda mais eficienteO diretor, assim como seus personagens, tenta extrair o que há de melhor em si para dirigir seus personagens e as boas sequências. 

O show de atuações fica mesmo entre o protagonista e (talvez) antagonista. Miles Teller faz ótimo trabalho no papel de Neyman e é uma pena não ter sua presença no Oscar. O jovem ator já mostrou ser promissor e já possui alguns projetos interessantes no futuro, como o papel de Sr. Fantástico em Quarteto Fantástico. 

J.K. Simmons é o grande destaque desta trama. Seu papel pode não exigir muita preparação, mas ainda assim é necessário um bom laboratório para encarnar a personagem como ele fez. Embora não seja o favorito, se levar o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante não será surpresa alguma.  

Com ótima trilha sonora, excelente direção, boas atuações e uma sequência final de tirar o fôlego, Whiplash - Em Busca da Perfeição é feito para os amantes de música e para aqueles que buscam seguir algum sonho. Seu único defeito é parecer superficial em alguns quesitos. Chazelle consegue mostrar a obsessão em dois pontos de vista distintos, porém paralelos com eficácia. No entanto, deixar seus efeitos colaterais um pouco fora do cenário principal o torna morno. Na escola Aronofsky de filmes sobre obsessões, Damien Chazelle precisa fazer assim como seu protagonista: praticar mais em busca da perfeição.

Nota:

Vinicius Machado terça-feira, 10 de fevereiro de 2015
Série Oscar 2015: Sniper Americano


Chris Kyleex-atirador de elite dos Seals da Marinha norte-americana, foi responsável por cerca de 160 mortes durante toda sua carreira. Cumpriu, durante quatro turnos no Iraque, a missão para a qual fora treinado: garantir a proteção de seus companheiros nas operações por terra.   

Ao retornar para casa, em 2009, trazia no peito dezesseis condecorações e estrelas no peito. No entanto, foi baleado durante uma de suas aulas de tiros a veteranos feridos em guerra por um dos alunos. O fato gerou comoção no país todo e, obviamente, sua história não demoraria a virar um longa metragem. 

Sniper Americano é dirigido por Clint Eastwood e adaptado do livro The Autobiography of the Most Lethal Sniper in U.S. Militar History.  

Após o 11 de setembro, o gênero de guerra voltou à tona e, praticamente todo ano, Hollywood lança um novo longa a respeito. Alguns obtém o sucesso e são indicados a vários prêmios, outros caem no esquecimento. Dois bons exemplos são os filmes da diretora americana Kathryn Bigelow, Guerra ao Terror e A Hora Mais Escura. Enquanto um levou para casa seis estatuetas e é lembrado até hoje, outro levou apenas uma e poucos lembram de ter assistido. 

Sniper Americano é um filme que lembra Bigelow na direção. É cru, bem editado e tenso do começo ao fim. Mas peca ao exaltar ao extremo o patriotismo americano. É um filme feito para o público em massa, sendo assim, certos clichês são colocados no centro da trama. Não é a toa que esta é a estreia de maior bilheteria de Eastwood. 

Assim como todos os filmes do diretor, o foco tende a ser a formação de personalidade do personagem. Kyle é retratado desde alguns episódios de sua infância com seu pai rígido até sua pequena carreira como cowboy, até chegada no exército. 

Porém, apesar do objetivo ser mostrar a obsessão pela guerra e todos os seus efeitos colaterais (que envolvem família e terceiros), o longa tende a cair numa propaganda republicana. Por sorte, temos um bom diretor para não deixar isso fugir do controle. 

A criação dos traumas e as situações vividas pelo soldado são bem retratados. Em certos momentos, o público pode sentir a sensação de estar ali com ele ao decidir se deve ou não puxar o gatilho. Assim como pode sentir a tensão de sua esposa ao ter (ou não) notícias dele durante o tempo no Iraque. 

Bradley Cooper é o responsável por trazer Chris Kyle às telonas e faz mais um excelente trabalho no ápice de sua carreira. Não é de hoje que o ator coleciona elogios por suas atuações. Este será seu terceiro ano seguido concorrendo ao Oscar. Em 2013 e 2014 passou raspando como melhor ator em O Lado Bom da Vida e ator coadjuvante em Trapaça, respectivamente. Devido à forte concorrência, é provável que fique mais uma vez no quase na categoria de melhor ator. Mas isso não desmerece a ascensão do ator, que deixou de ser só mais um rostinho bonito para integrar o time de grandes atores da atualidade. Um dos atores que melhor entende seu papel e o procura fazer de maneira eficaz. 

Com características técnicas apuradas, boa edição e uma excelente atuação de Cooper, Sniper Americano é um longa ao melhor estilo Clint Eastwood, mas peca no patriotismo que só interessa aos próprios americanos. Independente disso, é fato que a adaptação funciona como um bom filme, mas perto de seus concorrentes ao Oscar de melhor filme, não tem a menor chance. 


Nota:

Vinicius Machado quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
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