Não tem jeito. No Oscar atual, ao menos um filme biográfico concorre à estatueta de melhor filme. Este ano temos três: Selma, O Jogo da Imitação e A Teoria de Tudo.
Enquanto o primeiro busca trazer um pouco da história de Martin Luther King, os dois últimos são sobre cientistas. Alan Turing e Stephen Hawking respectivamente. No entanto, o enfoque de cada um é o que dita a singularidade dos dois.
A Teoria de Tudo conta a história do físico inglês Stephen Hawking (Eddie Redmayne), responsável pela teoria sobre buracos negros e portador de esclerose lateral amiotrófica, diagnosticado quando ainda era jovem. A trama também gira em torno de sua relação com Jane, sua primeira esposa.
O grande diferencial está exatamente nas relações. O enredo poderia girar apenas em torno de suas teorias fantásticas que poderia, sim, alcançar o mesmo sucesso. Mas a cereja do bolo está na humanização do personagem.
Todos nós já conhecemos Hawking em sua cadeira de rodas e voz digitalizada. Mas não sabíamos nada a respeito de sua vida. E isso é o que mais nos interessa dentro do longa. Afinal, a linguagem cientifica, se fosse usada como destaque, afastaria alguns públicos, enquanto usar como pano de fundo para um romance, atrairia.
James Marsh estreia muito na direção de uma ficção. O diretor já levou o Oscar de melhor documentário com O Equilibrista. Sua mão ao saber contar uma história é admirável, principalmente ao ditar outras vertentes de uma mesma situação. Grande acerto foi também não ter caído na pieguice de um romance comum. A ideia de trazer a visão de Jane, mas sem perder ponto principal da trama é muito bem trabalhada.
Em nenhum momento o espectador encontra uma situação de moralismo barato. Hawking e Jane enfrentam problemas como qualquer outro casal e nem o fator doença transforma o cientista numa vítima ou algo parecido. Pelo contrário. Há algumas brincadeiras e piadas a respeito de sua dificuldade motora. O enredo joga às claras: É um filme sobre o cientista, mas ao mesmo tempo é mais que isso, é um romance, uma outra visão.
Claro, ainda assim é necessário que o filme tenha suas particularidade para que funcione, e boa parte dela está no casal de atores.
Felicity Jones faz um ótimo trabalho no papel de Jane. O público mal a percebe no início, mas garota evolui conforme a trama se desenvolve e encerra como uma grande personagem. A atriz tem seu primeiro papel de grande importância e agarrou a oportunidade, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz e, provavelmente, bons papéis no futuro.
No entanto, é Eddie Redmayne que possui maior destaque no longa. Não é pra menos, já que sua atuação é absurdamente incrível. Redmayne também é praticamente um estreante em papéis de maior expressão e conquistou a todos. Interpretar Hawking é um desafio e tanto. O ator anda e fala até a metade do filme, mas é quando as dificuldades motoras do personagem aparecem que o grande trabalho vem à tona. É o maior favorito a levar o Oscar de melhor ator, talvez um dos únicos prêmios do filme na noite de domingo.
Com atuações fantásticas e uma história bonita sem precisar apelar para o sentimentalismo barato, A Teoria de Tudo leva ao público um pouco do lado pessoal de Stephen Hawking. Sem dúvidas, esse é um olhar diferente do que estamos acostumados em ver nas biografias cinematográficas. Em meio à exaustão desse gênero, James Marsh mostra que é possível apresentar diversos pontos de vistas sem parecer burocrático. Afinal, se foi aprovado pelo próprio cientista, quem somos nós para botar defeito?

