No Brasil, boa parte das famílias de classe média e alta possuem diaristas ou empregadas domésticas. Muitas delas, inclusive, estão há anos trabalhando na mesma casa, seja por conta da confiança de seus patrões ou pelo fato de ter cuidado de seus filhos desde a infância e os mesmos possuírem laços fortes com ela. No entanto, há também o lado social da situação, em que a maioria dessas famílias, por mais que a considerem "parte dela", ainda a tratam como uma empregada comum. Este é o plot de Que Horas Ela Volta? dirigido e escrito por Ana Muylaert.
Val (Regina Casé), uma mulher que largou o Nordeste para seguir sua vida em São Paulo para poder dar sustento à sua filha Jéssica (Camila Márdila), que ficou lá. Ela trabalha há mais de uma década como empregada doméstica e babá de Fabinho (Michel Joelsas), morando integralmente na casa de seus patrões. A situação começa a mudar quando Jéssica lhe telefona pedindo ajuda e diz que precisa ir a São Paulo prestar vestibular (o mesmo que Fabinho). A personalidade forte e o comportamento da garota, que não aceita essa imposição de patrão/empregado, complica a convivência dela com os patrões de Val.
Provavelmente você já viveu ou conhece alguém que viveu situação parecida com o que citei no início do texto. Com certeza você já ouviu de alguém a frase "Ela é quase da família" ao se referir de uma babá ou empregada doméstica. No entanto, esta frase vem com certos apontamentos omitidos, como o porquê dela almoçar depois de seus patrões ou, no caso de Val, se ela é tão "quase" da família, porque vive tantos anos num quartinho nos fundos enquanto o quarto de hóspedes segue livre?
É nessa linha que Muylaert provoca os espectadores. Ela faz refletir sobre essas e outras questões de valores sociais por meio de um roteiro simples e discreto. Aliás, todo o filme é assim: Não espere ter nada de mão beijada, todas as cenas necessitam de uma reflexão para que a mensagem seja captada. A essência do roteiro está nas entrelinhas e até mesmo nas metáforas como é o caso da separação do sorvete da família e o que Val e sua filha podem tomar. Aguce seus sentidos para absorver o máximo de informação, do contrário você pode até sair do cinema achando que assistiu apenas a um cotidiano normal, o que não deixa de ser verdade.
Jéssica é a personagem principal para que esta provocação seja colocada em prática. A garota vem de uma geração diferente da cultura da mãe e teve mais acesso à informação. Isso fica cada vez mais explícito a cada diálogo dela com Val. Em certo momento, ela questiona como é que a mãe sabe de tudo aquilo que pode e o que não pode, tendo como resposta de que há certas coisas que já se nasce sabendo. Um ponto claro sobre a posição das classes, em que rico acredita ser feito para estar naquela posição e o pobre, idem.
Outro ponto interessante do filme são as linhas tênues que existem dentro dele. A primeira, entre o drama e comédia. O público vai sentir e se revoltar com algumas situações de Val com seus patrões, mas a revolta vira riso com as ações da empregada. E é aí que entra a segunda linha, onde todos estão tão acostumados a ver o que acontece que a revolta, além de riso, vira hipocrisia. Sim, há muitas situações que, externamente, achamos um absurdo, mas nos esquecemos que dentro de casa isso pode acontecer naturalmente. Lembra dos sentidos aguçados? Então, reflita.
No entanto, nada disso seria tão evidente se não fosse a atuação magistral de Regina Casé e o elenco. Esqueçam o lado de entretenimento/apresentadora dela e dê lugar à função da qual ela iniciou sua carreira. A atriz mostra que não esqueceu suas origens e dá um show de atuação, desde o drama até a comédia. O papel parece ter sido feito pra ela.
Além disso, alguns personagens são caricatos e até apontam um exagero em certo ponto, como é o caso de Lourenço Mutarelli, que interpreta Carlos, o pai da família. Talvez este o mais destoante de todos, que seguem uma linha coesa. Claro, isso não interfere na trama, mas dentro de um argumento tão determinado a se parecer realista, o personagem se aproxima um pouco mais da ficção.
Além do roteiro, há também alguns fatores técnicos que aumentam ainda mais a qualidade do longa, como a fotografia, enquadramento e a utilização das cores. Tudo é muito bem feito esteticamente, o que deixa as cenas ainda mais bem elaboradas. Neste quesito, deveria vencer todos os prêmios.
O nome nacional é explicado logo no começo quando Fabinho ainda pequeno pergunta a Val que horas sua mãe volta do trabalho e faz todo o sentido durante suas duas horas. Mas talvez a escolha do nome internacional, The Second Mother, seja bem mais coeso quando se trata da essência.
Discreto, tocante e até divertido Que Horas Ela Volta? explora certas camadas sociais e entrega um filme simples e singelo, mas de uma carga emocional muito grande, que faz refletir nas entrelinhas sobre não só valores, mas também sobre amor maternal, esse que parece essencial, independente de onde venha. Depois das premiações em Sundance e Berlim, este é o escolhido para representar o Brasil no Oscar. Não é pra menos. Afinal, não é sempre que o país transmite uma realidade que não a violência e criminalidade ao mundo.

