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Série Oscar 2016: A Grande Aposta

A crise de 2008 nos EUA gerou proporções globais e se originou devido a uma elevação manipulada dos preços dos imóveis. A chamada bolha levou os preços às alturas e depois ao chão, em que, inclusive culminou na falência do tradicional banco de investimentos americano Lehman Brothers, fundado em 1850.

Sim, este é um assunto chato que poucos possuem familiaridade. Inclusive, o cinema tentou algumas vezes abordar o tema, mas sem muito sucesso. "Margin Call" é o melhor, mas trata com muita seriedade. Mas o diretor Adam McKay resolveu contar sua versão da crise, e acredite, o assunto se torna no mínimo interessante.

"A Grande Aposta" é baseado no livro homônimo de Michael Lewis e conta a história de cinco homens que, de maneira diferente, conseguiram prever que o sistema financeiro americano iria quebrar. Michael Lewis (Christian Bale) é o primeiro a descobrir e aposta todo o fundo de sua empresa num seguro aos bancos, algo que cientista financeiro nenhum recomendava. Jared Venett (Ryan Gosling) descobre e passa a vender esses seguros do banco em que trabalha a seus clientes, um deles é Mark Bauman (Steve Carell), dono de uma corretora que enfrenta problemas pessoais. Paralelamente, dois iniciantes percebem que podem lucrar e também apostam na crise com a ajuda de um guru de Wall Street recluso, Bem Rickert (Brad Pitt).

O grande diferencial do filme é a dinâmica usada na edição e a forma com que McKay aborda o assunto. O diretor, conhecido por suas parcerias com Will Farrell, ironiza e ri da crise sem dar glamour algum a esse meio. Ele encontra seu lado ridículo e absurdo para realizar uma caricatura do cenário financeiro e todos que os rodeiam (vide cabelos dos personagens). Claro, a linha entre o drama e a comédia é tênue, afinal, a situação de 2008 fez com que milhões perdesse o empregou ou fossem despejados de suas casas.

Um dos problemas que poderiam ter prejudicado o filme é a linguagem complexa do mundo dos negócios. Mas a dica é não se prender tanto aos termos. Alguns são até importantes mas não alteram em nada o grande mote do filme, então é possível seguir em frente mesmo não entendendo uma palavra do que os personagens dizem, o entendimento do conjunto é o importante. Além disso, o longa brinca diversas vezes com esquetes de famosos explicando os termos, como por exemplo Margott Robbie numa banheira ou Selena Gomez em um casino. São sequências divertidas, que refrescam e simplificam os assuntos complexos. McKay ainda  faz alguns atores quebrarem a quarta parede para conversar diretamente com o público.  

O elenco é bem escolhido e todos fazem ótimos trabalhos, a direção dos atores é uma mistura de Martin Scorses (McKay não poupa referências a "O Lobo de Wall Street") e David O. Russell, que transforma seus atores em personagens extremos numa linha em que se sabe pouco sobre eles.
Ryan Gosling é o que mais aparece nessa condição. O personagem também é o narrador e faz essa ponte entre o público e a trama. Ele faz um bom trabalho, um pouco mais à vontade do que em outros filmes.

Christian Bale é Lewis, um homem que possui sérios problemas de socialização, mas um gênio em cálculos e previsões financeiras. Não à toa, encontrou primeiro que todo mundo uma forma de lucrar quando a bolha imobiliária estourasse. O ator está ótimo como um cara introspectivo que fica em sua sala estudando e ouvindo heavy metal.

Mas o grande destaque é Steve Carell. O personagem é o retrato do extremo da crise: Explosivo e preocupado. Mark Baum é o mais desenvolvido de todos. Enquanto não há quase informação dos outros, deste sabemos que perdeu um familiar e sofre desde então, desacreditado no sistema. Talvez, este caminho que o personagem leva no decorrer da trama seja o grande pecado do filme. Não havia espaço para dramatizar tanto quanto foi feito, que deixou um tanto quanto piegas.

"A Grande Aposta" é um pouco difícil e confuso de se assistir, mas mesmo assim a sensação que fica no final é de satisfação. O filme cumpre o que promete e torna um assunto que poderia ser maçante numa narrativa divertida. Ele te faz querer entender melhor o porquê da crise. Ele se conduz no mesmo formato de "O Lobo de Wall Street", mas com objetivo mais consciente e clima totalmente contrário, o de ridicularizar e retratar o quão cruel foi a crise de 2008 e o quanto isso ainda prejudica o povo americano


Vinicius Machado sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016
Creed - Nascido Para Lutar

Superação. Essa é a palavra que rodeia por completo a franquia de Rocky. O primeiro foi escrito pelo próprio Sylvester Stallone, foi vendido por nada mais do que US$ 25 mil, uma participação de 10% no faturamento da fita e a garantia do papel principal para ele mesmo sem um pagamento adicional. Ele foi filmado em 28 dias, custou pouco mais de US$ 1 milhão e era esperado como um fracasso. Ledo engano. O filme faturou mais de US$ 110 milhões nos EUA e desbancou "Taxi Driver" e "Todos os Homens do Presidente" ao levar o Oscar de melhor filme do ano de 1976. Além disso, rendeu cinco sequência e agora um spin-off, "Creed".

Em "Creed - Nascido Para Lutar", Adonis Johnson (Michael B. Jordan) possui a luta está em seu sangue. Não para menos, afinal ele é filho de Apollo Creed. Após decidir entrar no mundo das competições profissionais de boxe, ele consegue convencer Rocky Balboa (Sylvester Stallone) a ser seu treinador em busca da glória.

"Creed" é um projeto arriscado, mas coerente. Franquias de sucesso sempre voltam, isso é fato. Porém, "Rocky Balboa" foi responsável por fechar de vez a carreira do boxeador e deixou bem claro: Rocky jamais voltaria aos ringues para uma luta. Sua idade era avançada e todas as suas motivações já haviam acabado, não havia mais razão para lutar, portanto, não haveria razão para um sétimo filme.

O jovem diretor Ryan Coogler entendeu bem a ideia e foi inteligente na construção do roteiro, ao lado de Aaron Covington. Rocky não pode voltar aos ringues para lutar, mas porque não voltar a eles ara ficar apenas no corner? E claro, não haveria ninguém melhor para ser treinado por ele do que filho de um de seus melhores amigos, Apollo Creed. E porque não usar bons elementos dos clássicos para a construção de um novo protagonista?

Coogler consegue trazer para o tempos atuais a romantização que o Boxe tinha nos anos 70. Em tempos de MMA, o esporte ficou um pouco de lado. Além disso, o filme leva ao espectador que é fã a nostalgia e a mesma estrutura do primeiro Rocky, mas com frescor e modernidade, exatamente para conversar com os mais jovens. "Eye of the Tiger" dá lugar ao hip-hop, o business em volta da luta se mantém, mas se adapta à comunicação atual, como as do evento do UFC e a grandiosidade de um evento.

No roteiro, o longa pode até conter alguns furos, mas não exagera em momento algum nas doses drama e nos alívios cômicos. Tudo é feito na hora certa e faz com que os personagens cresçam conforme os acontecimentos. O drama toma conta muitas vezes, mas está longe de ser piegas.

As sequências de lutas são um show à parte, o trabalho com as câmeras é muito bom e o realismo é impressionante. O último Rocky já continha semelhanças a assistir uma luta pela TV, mas desta vez o clima é real e interessante. Claro, espere todos os clichês possíveis dentro do ringue, mas isso não impede a plateia (que está atrás da tela) vibre e torça.  

O entrosamento dos dois personagens principais é o grande pilar do filme. Michael B. Jordan faz um ótimo papel e lembra muito a personalidade de Apollo, um pouco mais explosivo. Um grande trabalho. No entanto, Sylvester Stallone é quem rouba a cena. Esqueça, por mais que tentem, é impossível tornar Rocky Balboa coadjuvante de seu próprio filme. Ouso dizer que o longa tem muito mais a ver com mais uma redenção sua do que a superação de Adonis.  

Stallone mais uma vez nos dá um cruzado de direita com a mensagem clara de superação, e não só como Rocky. O ator, que parecia defasado e fora do mercado (salvo os de ação de sempre), volta com tudo para seu maior papel e faz uma de suas melhore atuações na carreira. Eu não achei que um dia diria isso, mas sua atuação é merecedora de prêmios (ele já ganhou o Globo de Ouro, por exemplo). Como personagem, há o mesmo clima do anterior e todos os dilemas que o envelhecimento traz e não só quando se trata de uma carreira. Claramente, é muito mais sobre a vida e a superação dela do que Boxe em si.  

Assim como toda sua franquia, "Creed – Nascido Para Lutar" é superação por todos os lados. Dentro dele, a redenção de um jovem com infância difícil e de um ex-atleta sem motivação seguir em frente. Fora dele, a renovação de um franquia, uma nova página escrita sobre Rocky Balboa e mais uma prova (ao lado de Star Wars e Jurassic World) de que é possível dar sequência aos clássicos com frescor ao mesmo tempo em que se agrada os fãs. Ao final a mensagem que fica é que não importa a idade, sempre é possível aguentar mais um round.


Vinicius Machado terça-feira, 23 de fevereiro de 2016
Série Oscar 2016: O Quarto de Jack

Eu preciso ler mais livros. Sim, essa é a frase que dito para mim pelo menos há uns dois anos. Não sei, mas conforme as coisas foram evoluindo (leia-se faculdade, trabalho, etc...) meu hábito de ler diminuiu absurdamente. Não a toa tenho pilhas de livros que comprei ao longo do tempo e sequer li sua contracapa. Enfim, compartilhei essa pequena reflexão para chegar neste ponto: Eu me sinto um pouco mais culpado a cada filme-adaptação que eu assisto e gosto. E isso aconteceu de novo.

Vamos combinar que é muito difícil um filme superar sua obra original, certo? Pois bem, partindo dessa premissa, se eu adorei o filme, com certeza eu teria amado o livro.

Chorado o leite derramado, eis que a adaptação da vez é "O Quarto de Jack", baseado no livro "Quarto", de Emma Donoghe, que conta a história de uma mãe e um filho, que vivem juntos em um quarto. Enquanto Jack, de cinco anos acredita veemente que aquilo ali é seu mundo, sua mãe sofre por estar ali há sete anos contra sua vontade.

Antes de escrever esta resenha, eu pesquisei muito sobre o livro e vi que a trama se desenrola apenas sob o olhar de Jack, onde ele é o narrador até o fim.  Isso só me fez acreditar ainda mais na força do filme. O desafio de transmitir esse olhar a um filme é extremamente difícil, mas acreditem, o diretor Lenny Abrahamson (Frank) conseguiu fazer isso com maestria.

A primeira parte do filme é arrebatadora. O quarto é explorado com muita sutileza nos seus mínimos detalhes e nos faz acreditar um pouco no que o pequeno Jack pensa: Aquilo ali é seu mundo, é enorme, é real. "Monstros são muito grandes, por isso não podem ser reais, assim como o mar", pensa ele em um de seus ótimos momentos de reflexão e visão sobre seu mundo, que acontecem esporadicamente. Uma sacada genial do diretor.

Ao mesmo tempo em que o público observa como um terceiro, ele também faz parte não só da cabeça de Jack, como também de sua mãe. A introspecção dos dois personagens e a construção disso é incrível. Isso envolve, também, a forma com que o diretor trata as mudanças drásticas da trama. De um lado, um local pequeno, aconchegante e seguro, mas solitário. Do outro, o mundo lá fora, enorme e libertador, mas ao mesmo tempo agoniante, gerados pelo trauma e a readaptação.

Agoniante também é a sequência em que a história vira. Simplesmente não dá para respirar perante os acontecimentos. E quando se acha que vai ficar tudo bem, a trama sufoca cada vez mais. O filme faz com que o espectador mergulhe cada vez mais no enredo, que ora proporciona o riso com a forma de ver o mundo do garoto, ora o choro de suas dificuldade, e até os dois juntos. E é nesse mix que o longa vai até seu final.

Além da ótima direção, há também dois pilares que seguram as quase duas horas de duração. O primeiro é a atriz Brie Larson, que honra seu globo de ouro numa atuação intensa e sincera. Há muito mais que a responsabilidade de ter tido um filho em cativeiro envolvido, e suas ações explicitam isso.

O outro, como vocês já devem saber, é a grande injustiça do ano no Oscar, Jacob Tremblay. O canadense de nove anos é quem move "O Quarto de Jack". Seu timing de atuação é impecável, que mistura a inocência e a vulnerabilidade com a força e a coragem com que ele encara as dificuldades. Nesse ponto, ele lembra muito Hushpuppy, personagem de Quvenzhané Wallis em Indomável Sonhadora. Se quando eu disse que há um mix de emoções a todo tempo, pode se dizer que uma enorme parte disso é culpa de Tremblay. DiCpario teve sorte do garoto não estar entre os indicados.

Delicado e poético ao mesmo tempo em que é pesado e claustrofóbico, "O Quarto de Jack" nos faz pensar em como encaramos as dificuldades da maneira de Joy, enquanto, na verdade, poderíamos tentar fazer como Jack, que de maneira inocente, encara as situações com maturidade.


Vinicius Machado segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
Série Oscar 2016: Spotlight - Segredos Revelados

Desde que entrei na faculdade de jornalismo, todos os professores me recomendaram "Todos os Homens do Presidente", belíssimo filme de 1976, de Alan Pakula, que conta como dois repórteres do “The Washington Post” revelaram ao mundo um dos maiores escândalos da política mundial: o caso Watergate. De fato, o filme é uma aula de jornalismo, que com seu ar documental, traz o realismo sem glamourizar a profissão. Em 2016, "Todos os Homens do Presidente" ganhou um novo companheiro de "filmes essenciais para jornalistas".

"Spotlight - Segredos Revelados" também é baseado em uma história real, que deu origem ao livro vencedor do prêmio Pulitzer e escrito pelo mesmo grupo que participou da apuração do caso. O drama mostra um grupo de jornalistas em Boston que reúne milhares de documentos capazes de provar casos de abuso de crianças causados por padres católicos. Durante anos, líderes religiosos ocultaram o caso transferindo os padres de região, ao invés de puni-los pelo caso.  

Spotlight é, também, o nome do grupo de jornalistas do The Boston Globe, onde eles passam meses pesquisando sobre determinado caso para produzir artigos investigativos. É neste grupo que mora a grande força do filme. Primeiro pela grande mão do diretor em dar um dinamismo muito grande ao elenco, que tem Mark Ruffalo, Rachel McAdams e Michael Keaton como grandes pilares da produção.   

Depois, o filme leva ao público às estruturas de roteiro bem semelhantes aos anos 80 e 90, onde a paciência e a simplicidade de se chegar a um resultado é um trunfo. Em "Spotlight", não há pressa de climax, nem de entregar informações desencontradas, tudo no filme é feito com o máximo de cuidado com o que se apura e o que se transmite ao espectador. A linha entre o que pode soar sensacionalista e o real é muito tênue e o diretor e roteirista Tom McCarthy sabe bem se equilibrar nessa linha. O diretor, aliás, é praticamente um estreante. "Trocando os pés", filme com Adam Sandler é seu grande lançamento na carreira.  

Mesmo assim, sua mão, tanto como diretor, quanto roteirista é fundamental para que o longa tenha a qualidade que tem. A trama prende, envolve e mergulha seu público na redação de um jornal tradicional dos EUA, sem heroísmos ou figuras patrióticas típicas em filmes assim, o que se passa dentro da redação (e até fora dela, durante apurações) é jornalismo da sua mais pura essência. Até mesmo quanto seus personagens vão descobrindo alguns detalhes importantes sobre a própria gestão do jornal e algumas autoridades.  

Claro que o filme também não pode ser tomado como verdade absoluta. O filme aborda apenas o lado em que os jornalistas abordam, com vítimas e pessoas que de alguma forma estão ligadas ao caso. Ainda assim, a revolta toma conta de quem assiste por saber que atrocidades como essas aconteceram, principalmente quando sem fala de uma entidade religiosa.

Um ponto interessante é que o longa, apesar de flertar melhor com os jornalistas, ele é de fácil entendimento pelo público e revigora a profissão para quem vê de fora. Em tempos modernos, é sempre bom mostrar ao público como foi e como deve ser uma apuração de caso.

O elenco, como dito anteriormente é, com certeza, o que potencializa o filme. A disciplina dos atores com o que o diretor pede é incrível, ainda mais quando se trata da personalidade de cada um. Por mais que não haja uma estrela brilhando sozinha no elenco (mais um acerto), Mark Ruffalo é o destaque no papel de Mike Rezendes, com um tom mais excêntrico, ele se equilibra entre a afobação pela inexperiência e a habilidade e faro jornalístico. Rachel McAdams por sua vez, atua muito bem como Sacha Pfeiffer e Michael Keaton, bom, este parece ter voltado à sua forma depois de Birdman. Mas é interessante ver as divergências do papel anterior e este, onde ele está mais acuado.  

Consistente, simples e impecável, "Spotlight – Segredos Revelados" é muito mais do que uma aula de jornalismo, é um semestre na faculdade do curso. Tom McCarthy faz sua própria matéria especial com uma manchete simples e um corpo de texto sem pesar ao sensacionalismo. É sempre bom revigorar o tema do jornalismo sem glamour ou heroísmo, apenas mostrar o que é a profissão. Aos meus amigos professores, separem quatro aulas no semestre. Além de "Todos os Homens do Presidente", virou obrigação mostrar "Spotlight" aos alunos.

Nota:

Vinicius Machado segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016
O Regresso (ou Precisamos falar sobe Leonardo DiCaprio)


Leonardo DiCaprio merece um Oscar. Sim, essa afirmação provavelmente está na sua cabeça, afinal, ela é uma unanimidade entre os amantes do cinema, e até mesmo de quem pouco acompanha. Há quem diga que ele deveria ter levado por "Titanic" (argh!), alguns por "Prenda-me se for capaz" ou por seu cruel Calvin Candie em "Django livre" (2013). No entanto, suas verdadeiras indicações e, de fato as mais merecidas foram em "O Aviador" (2004), "Diamante de Sangue" (2006) e "O Lobo de Wall Street" (2014). Ele não levou nenhum e desde então sofre com piadinhas a respeito. Bom, digamos que até o dia 28 de fevereiro deste ano.

Pois é, parece que, finalmente DiCaprio levará o careca de ouro para casa. "O Regresso" é sua nova tentativa nesta busca e, pelo andar da carruagem, muito provavelmente será o grande vencedor da noite. Mas a questão é...ele merece?

"O Regresso", dirigido por Alejandro G. Iñarritu, é baseado no romance homônimo de Michael Punke, que por sua vez se inspirou na história de Hugh Glass, um explorador e comerciante de peles que é atacado por um urso e deixado por seus companheiros para a morte. Em uma natureza selvagem, ele tenta sobreviver e se guiar pelo instinto de vingança contra Fitzgerald (Tom Hardy), que antes de lhe abandonar, assassinou seu filho.
Pois bem, "O Regresso" é muito mais sobre uma natureza inóspita do que sobre vingança propriamente dito. Iñarritu, diretor vencedor do Oscar por "Birdman", é o grande responsável por fazer isso funcionar de maneira excepcional. O diretor, que também é co-roteirista, consegue tornar todo um ambiente o principal vilão do filme. E quando digo todo o ambiente é tudo mesmo, desde os índios e franceses até o inverno congelante dos EUA. O público sabe que a qualquer momento pode acontecer alguma coisa inusitada e fica esperando por isso.

O filme começa já numa correria entre os exploradores e índios, onde a trama se desenrola até Glass encontrar o tal urso, se digladiar com ele e, obviamente, perder impiedosamente. Sim, a cena é cruel, forte, nua, sem poupar qualquer violência, mas infelizmente, é a partir daí que as coisas começam a ficar ruins.  

Como o diretor prefere focar a introspecção do personagem ao invés da ação, ele passa a ser inconstante. As sequências prendem o espectador, o desenrolar da trama não. Os personagens menores são rasos e chega um momento em que vemos apenas dor, frio, sofrimento e martírio.

A ideia de Iñarritu era a mesma de Birdman: trazer o espectador para dentro do filme, fazer com que ele tivesse as mesmas sensações do protagonista. Mas o que ele não soube fazer foi diferenciar um filme do outro. Enquanto seu anterior era compacto, realista e com poucas distrações, este é mais espaçoso, com mais pontas e núcleos. Não há empatia com o personagem de Leo. Deveríamos sentir e sofrer junto com ele em sua sede de vingança. Mas isso não acontece. Podemos até sentir arrepios ao ver Glass comendo uma tripa de búfalo ou membros decepados, mas jamais sentiremos a dor de estar ali nos EUA em 1823 como sentimos a frustração de um ator decadente na Broadway. Esse é o maior pecado do mexicano.

Ainda assim, a direção é esplêndida e isso faz com que o filme seja ótimo. Com exceção da mixagem de som (algumas dublagens bem mal feitas, não sei se era a projeção, mas né), os aspectos técnicos são de cair o queixo. Iñarritu cada vez mais se compromete a entregar longas com técnicas impecáveis. Claro, muito disso não seria possível sem seu diretor de fotografia pela segunda vez Emmanuel Lubeski. O cara não faz trabalho ruim e consegue potencializar um filme na maior qualidade possível. Desta vez, a floresta e os grandes cenários são seus personagens principais, é aquele fator de que a natureza é o maior vilão da trama se deve muito a ele.
Precisamos falar sobre Leonardo DiCaprio

Bom, provavelmente era aqui que você queria chegar. Ele é o protagonista do filme, ele tem sido manchete em todos os jornais e responsável pelos melhores memes de Hollywood. Afinal, DiCaprio vai levar o Oscar deste ano?

Sim, meus amigos, a não ser que os velhinhos da academia não queiram que a piada acabe, ele vai levar o Oscar de melhor ator para casa. Ele finalmente vai conseguir. Mas eu sinto lhe informar. Ele não merece. Não desta vez.

Calma, não que ele atue mal ou esteja mal no filme, não é isso. A questão é que o papel exige tanto dele, que praticamente não há nada de excepcional no que ele fez. Coloque qualquer outro ator da geração no papel dele e sairá exatamente a mesma coisa. A entrega é o que se exige pelo personagem em questão. Tanto que Christian Bale chegou a ser cotado para ele. Se de fato fosse ele, provavelmente levaria também.

A questão é a seguinte: Leonardo DiCaprio merece muito um Oscar e há um apelo enorme para que isso aconteça. Sabendo disso, os produtores o escalaram nesta condição. Ou seja. "Leo, vem aqui, temos um papel que te dará o Oscar". E a cada infortúnio dentro do filme ele parece dizer "Pronto, pelo amor de Deus, me deem logo a #$%$# do Oscar!".

A Academia por sua vez fará isso como uma forma de compensar aqueles outros três filmes em que ele merecia e não levou. Ainda não vi "Trumbo" nem "Jobs", mas há quem diga que há também o fator da concorrência estar em baixa. No mais, DiCaprio é o primeiro ator a levar o Oscar pelo conjunto da obra. Em 2016, ele está levando o Oscar de 2005, 2007 e 2014. No entanto, nada tira esse mérito dele.

Voltando ao filme, outro ator que justifica sua indicação a Melhor coadjuvante é Tom Hardy, ele é o personagem mais profundo do longa. Fitzgerald é egoísta, egocêntrico e não faz o mínimo esforço para esconder isso. Mas ele também é o cara que instiga o espectador a pensar até onde pode-se ir para sobreviver numa terra de ninguém. Aos poucos vamos descobrindo mais sobre o personagem e isso vai deixando-o mais interessante. Hardy, com certeza é meu favorito para a estatueta. Até porque, esse seria um prêmio de consolação para Mad Max, onde ele consegue, com poucas falas, trazer o espectador para debaixo de seus braços, coisa que faltou em Leo.

Ao fim de tudo, "O Regresso" parece ter pouca alma e está longe de ser o filme incrível que o público tanto esperava, mas ainda assim coloca Iñarritu a um patamar acima dos outros diretores. Ele entrega um longa à sua maneira mais uma vez sem se prender num gênero especifico (um western, talvez?) que conta com uma técnica impecavel, sequências cruas, pesadas e violentas, além de usar muito bem seu elenco. Contudo, ele perde muito por sua irregularidade e inconstância. Ainda assim, nós ouviremos falar muito deste filme. Afinal, foi ele quem deu o primeiro Oscar a Leonardo DiCaprio.


Vinicius Machado sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016
Série Oscar 2016: Ponte dos Espiões

Steven Spielberg é um dos maiores diretores de sua geração. Não há o que discutir quando falamos das qualidades de seus filmes que, mesmo quando fracos, ainda possuem diversas qualidades. No entanto, há alguns anos que ele não consegue emplacar uma verdadeira obra-prima. "As Aventuras de Tin-Tin" foi seu último grande trunfo. Depois vieram "Cavalo de Guerra" e "Lincoln", dois filmes bons, mas que claramente foram feitos no piloto automático a fim de bajular a academia e conseguir algumas indicações ao Oscar. Claro, conseguiram. "Lincoln" levou duas estatuetas das 12 indicações e "Cavalo de Guerra" nenhum, mas obteve 6 indicações.

Mais uma vez, um filme de Spielberg está entre os indicados a Melhor filme e outras cinco categorias. "Ponte dos Espiões" estreou em outubro do ano passado no Brasil (desculpem o atraso).

Baseado em fatos, "Ponte dos Espiões" traz Tom Hanks na pele de James Donovan, um advogado de seguros que é chamado para defender Rudolf Abel (Mark Rylance), um espião soviético capturado pelos americanos. Mesmo sem ter experiência nesta área legal, Donovan torna-se uma peça central das negociações entre os Estados Unidos e a União Soviética ao ser enviado a Berlim para negociar a troca de Abel por um prisioneiro americano, capturado pelos inimigos.

Apesar de estarmos falando das qualidades do diretor americano, não é dele o maior trunfo deste longa. O roteiro, escrito por Matt Charman e os irmãos Coen é o grande pilar do filme. É verdade que o ritmo é lento, mas os diálogos, muitas vezes ácidos, ganham destaque no desenvolver da trama sem muito esforço. Um filme sobre a Guerra Fria não precisa de ação, e é este o grande ponto.  

De início, como eu disse, o ritmo é lento e nos faz pensar que o filme será uma interminável batalha jurídica. Mas os acontecimentos, guiados pela ótima atuação de Hanks, nos levam a um didatismo e ótimas sequências de negociações e até mesmo nas discussões que tem com seu cliente, o espião soviético. A maneira de como ele conduz os fatos e as autoridades também é fantástica. Além disso, o longa transmite bem a tensão vivida na época entre americanos e soviéticos. Hanks segura bem a barra do personagem e adota o tom perfeito para lidar com situações de radicais.  

No entanto, por melhor que seja a mão do diretor, há alguns elementos que prejudicam a trama. Spielberg parece, sim, estar no piloto automático quando mais uma vez tenta impor um clima semelhante aos dois anteriores. Spielberg tem uma mania irritante de fazer tudo parecer uma grande amizade entre o protagonista e o coadjuvante. E por mais que na vida real Donovan e o espião criaram laços, o diretor faz parecer um tanto quanto piegas.

Isso sem contar sua forma de conduzir as conclusões, lentas e que se baseiam na grande mensagem que é sobre a família, o amor, e a amizade. Sim, pode até já ter virado um costume do diretor, mas é necessário saber dosar a ponto de não prejudicar o ritmo de uma trama, ainda mais quando seu argumento já lhe sugere ser lento. Algumas cenas inclusive, poderiam ser menos arrastadas e diminuiriam a duração, que é longa.

"Ponte dos Espiões" peca muito pelo dramalhão, mas ganha ao trazer uma análise mais fria e com um patriotismo menos evidente sobre a guerra fria. Claro, graças ao ótimo roteiro alinhado à fotografia impecável e (mais) uma ótima atuação de Tom Hanks. Ainda assim, é preciso admitir, Steven Spielberg, mesmo quando está no piloto automático, consegue prender a atenção de muita gente, inclusive a minha.


Vinicius Machado terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
Perdido em Marte

Depois dos sucessos de Gravidade (2013) e Interstelar (2014), parece que Hollywood gostou da ideia de lançar um filme sobre o espaço a cada ano. Não é pra menos, além de indicações a Oscar e bilheterias exorbitantes dos que citei, a NASA vem soltando informações de novas descobertas ou dados relevantes sobre o universo. A mais recente, é de que em Marte há córregos de água salgada. Coincidência ou não, a notícia veio na mesma semana de estreia do filme em questão. 

Perdido em Marte, baseado no romance The Matian de Andy Weir, conta a história do astronauta Mark Watney que, após uma tempestade em uma missão em Marte, é dado como morto e deixado para trás pela equipe e se vê obrigado a tentar sobreviver no planeta inóspito com poucos suprimentos. 

Ridley Scott é um diretor que vive flertando com a ficção cientifica. Este é o seu quarto filme do gênero, junto com Alien (1979), Blade Runner (1982) e Prometheus (2012). Os dois primeiros são verdadeiras obras-primas, mas o último marca a sua má fase na direçãoHá tempos o diretor inglês não entregava um filme tão bom e que fizesse jus ao seu posto de diretor de ponta, conquistado pelos clássicos do passado. Felizmente, esta fase parece ter acabado. 

Esqueça a solidão de Gravidade e as viajadas quânticas de Interstellar, Perdido em Marte é mais coerente e objetivo. Um homem esquecido em Marte precisa se virar para sobreviver e a NASA se virar para resgatá-lo. São dois pontos que levam a um mesmo objetivo com apenas informações relevantes. Não há o apelo sentimental de mostrar a família do astronauta ou sequer algum comentário sobre sua história de vida. É ele e só.  

Nesse ponto, a única falha foi explorar pouco o lado humano e psicológico de Watney. Afinal, se ficar sozinho por muito tempo em algum lugar já é complicado, imagina em Marte. Qualquer um piraria, principalmente nas situações em que ele se encontra, mas seu comportamento é bem sereno e com apenas algumas alterações de humor. 

A questão aqui é apenas a apreensão do que pode ou não acontecer e Scott sabe muito bem trabalhar isso. Ele faz com que o espectador mergulhe no filme e faça parte do próprio público que está dentro dele acompanhando o caso pela TV. A tensão parece ser a mesma deles, com a diferença que quem está do lado de cá da telona tem um pouco mais de privilégios das informações. Sabemos o que tá acontecendo em Marte, dentro da NASA e ainda assim somos meros espectadores, torcendo para que tudo dê certo. 

Tudo é muito bem detalhado e praticado de maneira lenta. Desde os acontecimentos em Marte, até as questões burocráticas dentro da NASA. Não existe pressa alguma para dar o desfecho ou coisa parecida. Scott acerta o timming das coisas e converge as situações sem ter que falar grego e cheio daquelas expressões que só os cientistas entendem. Elas estão lá, como sempre, mas um pouco mais simplificado e com menos enfoque. No mérito do que é real ou não, parece que a preocupação em fazer tudo de maneira coerente é maior. Você pode encontrar em alguns sites o que é ou não verdade. 

Ainda assim, o longa conta com alguns problemas como a previsibilidade e as coincidências do roteiro como o fato de Watney ser botânico e por isso sabe bem como pode plantar num planeta infértil. Se ele fosse um engenheiro ou qualquer outra coisa, gerar alimentos seria complicado e as chances de sobrevivência cairiam.  

No entanto, é nítido que o diretor procura se atualizar com novos formatos e linguagens. Os diálogos são mais soltos e em alguns momentos, mais ácidos e bem humorados. A trilha sonora é outro fator interessante, inclusive com a sugestiva "Starman" de David Bowie (Ok. Life on Mars seria mais).  

Matt Damon faz um excelente trabalho na pele de Watney. Mesmo que o enredo não lhe exija uma atuação mais dramática, o ator consegue proporcionar emoção em alguns momentos e arrancar boas risadas do público. O restante do elenco também não decepciona e contribuem muito emocionalmente para o desfecho, como é o caso de Jeff Daniels, no papel do diretor da NASA e Chiwetel Ejiofor, como um dos cientistas empenhados em fazer com que o resgate dê certo. 

Bem dirigido, eficiente, com boas atuações e algumas Hollywoodianices, Perdido em Marte é daqueles filmes que te deixa com o coração na boca a todo momento e diverte ao mesmo tempo de maneira simplória. Ridley Scott entrega seu melhor filme desde Gladiador, lançado há quinze anos. Resta saber se foi só um ponto fora da curva, ou se podemos comemorar a volta de um diretor de clássicos. 


Vinicius Machado terça-feira, 13 de outubro de 2015
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